{"id":6960,"date":"2026-01-23T10:01:25","date_gmt":"2026-01-23T10:01:25","guid":{"rendered":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/2026\/01\/23\/justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-em-brumadinho\/"},"modified":"2026-01-23T10:01:25","modified_gmt":"2026-01-23T10:01:25","slug":"justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-em-brumadinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/2026\/01\/23\/justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-em-brumadinho\/","title":{"rendered":"Justi\u00e7a n\u00e3o foi feita, diz m\u00e3e que perdeu os filhos em Brumadinho"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div id=\"entry-content-wrap\">\n                                                    No dia 25 de janeiro de 2019, h\u00e1 cerca de sete anos, quando a Barragem I da Mina de C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais, rompeu \u00e0s 12h28, Helena Taliberti perdeu toda sua fam\u00edlia. Os dois filhos, Luiz e Camila Taliberti, o pai deles, a nora, gr\u00e1vida do seu primeiro neto, e a esposa do ex-marido estavam passando o feriado do anivers\u00e1rio de S\u00e3o Paulo em uma pousada perto da barragem quando o desastre aconteceu. Os familiares de Helena est\u00e3o entre as 272 pessoas mortas soterradas pela lama t\u00f3xica despejada naquele dia.<\/p>\n<p>Helena Taliberti agora \u00e9 presidente do Instituto Camila e Luiz Taliberti. <span class=\"highlighter\">Ela faz parte da luta para haver <a href=\"https:\/\/apublica.org\/nota\/brumadinho-familiares-pedem-condenacao-de-ex-presidente-da-vale\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/a> da mineradora Vale e uma verdadeira repara\u00e7\u00e3o para os moradores de Brumadinho e familiares das v\u00edtimas.<\/span> O Instituto tamb\u00e9m busca conscientizar sobre os impactos da minera\u00e7\u00e3o para sociedade e na luta dos direitos humanos. \u201cA gente usa principalmente a quest\u00e3o da defesa dos direitos humanos com essas duas vertentes: o empoderamento dos grupos vulner\u00e1veis e a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente\u201d, explica.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia de Brumadinho foi o maior acidente de trabalho j\u00e1 ocorrido no Brasil. Os processos criminais foram muito vagarosos, segundo Taliberti. Em fevereiro de 2021, foi assinado um Acordo Judicial de Repara\u00e7\u00e3o, entre a Vale, o governo de Minas Gerais, o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Minas Gerais, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e a Defensoria P\u00fablica do estado, mas, para Helena Taliberti, n\u00e3o foi o suficiente.<\/p>\n<p><span class=\"highlighter\">\u201cO rio [Paraopeba] est\u00e1 completamente contaminado. N\u00e3o tem pesca, n\u00e3o tem \u00e1gua, n\u00e3o tem lavouras em volta, n\u00e3o tem as comunidades que viviam daquilo em volta.\u201d<\/span>, diz Helena Taliberti \u00e0 <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p>Um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que a vegeta\u00e7\u00e3o natural de Brumadinho foi perdida, \u00e1reas produtivas desapareceram, a din\u00e2mica dos rios foi alterada e houve contamina\u00e7\u00e3o dos solos perto do rio Paraopeba.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 a flora, mas a vida dos moradores, amigos e familiares das v\u00edtimas foi impactada. \u201cA trag\u00e9dia s\u00f3 come\u00e7ou no dia 25 de janeiro de 2019. A trag\u00e9dia \u00e9 todos os dias\u201d, entende Helena Taliberti. Segundo ela, o poder p\u00fablico deveria escutar as comunidades, as pessoas afetadas, para entender o impacto do desastre na vida delas e, principalmente, fazer leis ambientais mais r\u00edgidas.<\/p>\n<p>O perigo de ocorrer um novo desastre ambiental como Brumadinho n\u00e3o \u00e9 baixo para a dirigente do Instituto. A Lei do Licenciamento Ambiental, que entrar\u00e1 em vigor neste ano, mostra como os riscos de 2019 ainda s\u00e3o os mesmos de 2026. \u201cComo afrouxam as leis sabendo que [isso pode] matar pessoas? Que [normas lenientes para] os licenciamentos matam as pessoas? [\u2026] Quando as leis ainda n\u00e3o eram frouxas, como [ser\u00e3o] agora, aconteceu Mariana, aconteceu Brumadinho.\u201d<\/p>\n<p>\u201c<span class=\"highlighter\">Precisamos falar disso sempre [porque] n\u00e3o pode cair no esquecimento. O esquecimento e a impunidade s\u00e3o a porta para acontecer de novo.<\/span> A gente fala [que] a mem\u00f3ria \u00e9 important\u00edssima, lembrar disso \u00e9 importante, para que ningu\u00e9m passe pelo que n\u00f3s estamos passando\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Lembrar de Brumadinho, homenagear as 272 vidas perdidas, denunciar a impunidade e mostrar que a vida humana deve ser mais importante que o lucro s\u00e3o as motiva\u00e7\u00f5es do Ato pela Mem\u00f3ria que acontece anualmente no dia 25 de janeiro na Avenida Paulista. Em 2026 n\u00e3o ser\u00e1 diferente. A manifesta\u00e7\u00e3o ter\u00e1 in\u00edcio \u00e0s 10h, neste domingo, na esquina com a rua Augusta.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"424\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto1_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=640%2C424&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-212982\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto1_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?w=1000&amp;ssl=1 1000w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto1_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=800%2C530&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto1_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=150%2C99&amp;ssl=1 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ato pela Mem\u00f3ria das v\u00edtimas do rompimento da barragem da mineradora Vale do ano passado<\/figcaption><\/figure>\n<p>O lema do Instituto Camila e Luiz Taliberti \u00e9 \u201ctentaram nos enterrar, n\u00e3o sabiam que \u00e9ramos sementes\u201d, conta Helena. Para ela, todos s\u00e3o \u201cuma semente para brotar nesse mundo [o] amor, mas tamb\u00e9m [a] justi\u00e7a, principalmente justi\u00e7a, para que essa trag\u00e9dia n\u00e3o caia no esquecimento\u201d, conclui.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"424\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=640%2C424&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-212981\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=1600%2C1060&amp;ssl=1 1600w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=800%2C530&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=1536%2C1017&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?resize=150%2C99&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?w=1800&amp;ssl=1 1800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Foto2_Justica-nao-foi-feita-diz-mae-que-perdeu-os-filhos-no-desastre-da-Vale-em-Brumadinho.png?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Helena Taliberti dedica-se ao Instituto que leva o nome de seus filhos v\u00edtimas do rompimento da barragem<\/figcaption><\/figure>\n<p>Acompanhe, a seguir, a entrevista com Helena Taliberti:\u00a0<\/p>\n<p><strong>Sete anos ap\u00f3s o rompimento da barragem, na sua vis\u00e3o, o que ainda n\u00e3o foi resolvido? E \u00e9 poss\u00edvel para os familiares da v\u00edtima sentirem que a justi\u00e7a foi feita?<\/strong><\/p>\n<p>Sete anos se passaram e a gente sente que n\u00e3o foi feito nada. A justi\u00e7a n\u00e3o foi feita, o [andamento do] processo foi muito vagaroso. Na minha opini\u00e3o, falta ouvirem as comunidades, as necessidades das comunidades, falta legisla\u00e7\u00e3o, afrouxada no ano passado. Retomar uma legisla\u00e7\u00e3o que seja efetiva, [uma] fiscaliza\u00e7\u00e3o efetiva da condi\u00e7\u00e3o das barragens. Falta justi\u00e7a, as pessoas pensam que foi feita alguma coisa, que foi feita repara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi. Eu acho que a gente ainda tem um longo caminho pela frente. Esse ano me parece que j\u00e1 tem agenda para que as testemunhas sejam ouvidas do processo, mas ainda temos um bom caminho pela frente.<\/p>\n<p><strong>Em outubro do ano passado a Vale tentou terminar com o Programa de Transfer\u00eancia de Renda (PTR). A Justi\u00e7a, no entanto, manteve os pagamentos e um novo programa foi criado. As quest\u00f5es estruturais seguem sem conclus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, exatamente. Ainda tem muita coisa a ser feita e ainda tem muita consequ\u00eancia do rompimento da barragem que n\u00e3o foi equacionado. As pessoas ainda sentem o impacto. [Elas] precisam ser ouvidas, precisam ser amparadas do ponto de vista social e do ponto de vista econ\u00f4mico. N\u00e3o foram atendidas as reivindica\u00e7\u00f5es daquilo que precisa ser feito.<\/p>\n<p><strong>Onde a senhora acredita que a mineradora ainda deveria atuar para fazer uma repara\u00e7\u00e3o justa pelo desastre que causou?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu acho que n\u00e3o se tem a dimens\u00e3o dessa trag\u00e9dia. \u00c9 uma trag\u00e9dia que s\u00f3 come\u00e7ou no dia 25 de janeiro de 2019. \u00c9 [preciso] entender o que foi perdido pelas pessoas, pelas comunidades. Tem comunidades que viviam da \u00e1gua do rio e [isso] acabou. O rio est\u00e1 completamente contaminado. N\u00e3o tem pesca, n\u00e3o tem \u00e1gua, n\u00e3o tem lavouras em volta, n\u00e3o tem as comunidades que viviam daquilo em volta. O que tem [de] bairros em Brumadinho que no rompimento, perderam as nascentes de \u00e1gua que tinham, e n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua para beber. Eu acho que ainda falta muita coisa para ser feita. Ainda precisa que a empresa entenda que n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica forma [de repara\u00e7\u00e3o],n\u00e3o \u00e9 porque foi feito um acordo que est\u00e1 tudo bem. N\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 tudo bem. As comunidades precisam ser ouvidas,as pessoas atingidas precisam ser ouvidas naquilo que elas precisam para o seu sustento, para haver uma repara\u00e7\u00e3o verdadeira, para retornarem ao que eram antes [do desastre].<\/p>\n<p><strong>Como a senhora avalia a atua\u00e7\u00e3o da estrutura do poder, seja ele executivo, judici\u00e1rio e o legislativo, no caso do rompimento da barragem?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que houve uma certa evolu\u00e7\u00e3o, pequena, muito pequena, porque, de certa forma, a sociedade tem cobrado as inst\u00e2ncias jur\u00eddicas e os \u00f3rg\u00e3os de justi\u00e7a para atuarem de forma c\u00e9lere e efetiva naquilo que cabe a eles, que \u00e9 julgar essas pessoas. Eu acredito na justi\u00e7a brasileira Mas, por outro lado, voc\u00ea v\u00ea que o poder do setor da minera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. O PL da devasta\u00e7\u00e3o [projeto de lei 2.159\/2021] deixou a gente muito indignado com aquilo que o Congresso votou.<\/p>\n<p>Como afrouxam as leis sabendo que [pode] matar pessoas? Que os licenciamentos [aprovados] matam as pessoas. A falta de licenciamento, a instala\u00e7\u00e3o de mineradoras em lugares onde as pessoas correm risco de vida, permanecem. Ent\u00e3o, tem que existir uma fiscaliza\u00e7\u00e3o muito grande, a legisla\u00e7\u00e3o tem que ser mais r\u00edgida e, mais do que isso, as pessoas e as empresas t\u00eam que ser respons\u00e1veis por aquilo que elas fazem.<\/p>\n<p>Ela [a Vale] tem que ser responsabilizada por aquilo que fez, n\u00e3o d\u00e1 para simplesmente virar uma p\u00e1gina [e decidir que] vamos esquecer. N\u00e3o, n\u00e3o vamos esquecer, porque a morte dessas pessoas n\u00e3o pode ter sido em v\u00e3o. N\u00e3o pode haver [a morte de] 272 pessoas, inclusive dos meus filhos, minha fam\u00edlia inteira, e [n\u00e3o]\u00a0acontecer nada com quem causou isso.<\/p>\n<p><strong>A senhora acredita que outros desastres, como o que aconteceu em Brumadinho, podem voltar a acontecer no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acredito que sim. Quando as leis ainda n\u00e3o eram frouxas como s\u00e3o agora aconteceu Mariana, aconteceu Brumadinho. Mariana foi a sirene de Brumadinho que ningu\u00e9m quis ouvir. Porque, quando aconteceu Mariana, [as empresas de minera\u00e7\u00e3o] tinham que pelo menos ter [pensado] \u201cescuta, o que \u00e9 isso que est\u00e1 acontecendo com essas barragens?\u201d. Tinham que pelo menos ter que ter feito a li\u00e7\u00e3o de casa, que era a manuten\u00e7\u00e3o das barragens. Quando aconteceu [o rompimento da barragem em] Mariana e levou um distrito inteiro, e at\u00e9 hoje as pessoas ainda n\u00e3o est\u00e3o nas suas casas, porque o novo distrito n\u00e3o ficou pronto completamente. Ainda tem pessoas vivendo em hot\u00e9is, sendo alojadas, continuam sem suas casas.<\/p>\n<p>E depois aconteceu Brumadinho, a legisla\u00e7\u00e3o ainda era mais r\u00edgida. Imagine agora com a legisla\u00e7\u00e3o frouxa. Como vai ser? Eu acredito, sim, [pode ter outra trag\u00e9dia]. At\u00e9 porque Minas Gerais e o Brasil t\u00eam barragens que est\u00e3o com n\u00edvel de seguran\u00e7a [no limite], prestes a romper.<\/p>\n<p>S\u00e3o barragens que correm, sim, muito perigo de romper, e tem pessoas que moram em volta, comunidades inteiras em volta desses lugares. Tem muitos lugares em que as pessoas tiveram que sair das suas pr\u00f3prias casas porque j\u00e1 houve a possibilidade de rompimento e n\u00e3o puderam voltar. Quando voltam, ainda voltam com medo. Como voc\u00ea passa a vida inteira tendo medo de ser soterrado? Como voc\u00ea vive?<\/p>\n<p><strong>O Instituto Camila e Luiz Taliberti foi fundado para manter o legado e a mem\u00f3ria de seus filhos. Qual o principal objetivo da organiza\u00e7\u00e3o e qual a import\u00e2ncia dela na sua vida hoje?<\/strong><\/p>\n<p>O Instituto Camila e Luiz Taliberti foi criado pelos amigos e amigas da Camila e do Luiz, e por n\u00f3s tamb\u00e9m, familiares. A nossa indigna\u00e7\u00e3o foi tamanha que eles falaram que n\u00e3o [pod\u00edamos] ficar quietos, n\u00e3o dava para n\u00e3o falar. O principal objetivo \u00e9 ser voz de conscientiza\u00e7\u00e3o da sociedade para, principalmente, os impactos da minera\u00e7\u00e3o nas comunidades e nos territ\u00f3rios onde ela atua. Mas, tamb\u00e9m em defesa de direitos humanos, porque a gente percebe que nessas situa\u00e7\u00f5es [de desastres ambientais] a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos \u00e9 permanente.<\/p>\n<p>[Tamb\u00e9m] no empoderamento de grupos vulner\u00e1veis, especialmente as mulheres, porque as mulheres s\u00e3o sempre as mais atingidas, sempre. Brumadinho tem in\u00fameras vi\u00favas que perderam seus maridos e, de uma hora para outra, se viram completamente desprotegidas, despreparadas para assumir a sua vida e criar seus filhos, muitos com filhos pequenos, porque a grande maioria das pessoas que morreram eram jovens.<\/p>\n<p>E a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente. A gente usa principalmente a quest\u00e3o da defesa dos direitos humanos com essas duas vertentes: o empoderamento dos grupos vulner\u00e1veis e a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser uma voz, principalmente, fora de Minas Gerais. Porque Minas \u00e9 um estado que sabe dos problemas que a minera\u00e7\u00e3o traz, fora [do estado] muitas pessoas n\u00e3o sabem. Aqui em S\u00e3o Paulo, quando aconteceu, a gente se viu diante de um cen\u00e1rio que n\u00e3o t\u00ednhamos a menor no\u00e7\u00e3o do que era a minera\u00e7\u00e3o, como ela atuava, o que ela podia causar e quais os danos que ela traz para o meio ambiente. Ent\u00e3o, eu acho que \u00e9 importante, sim, ser essa voz. Ser e dar voz para as pessoas, para quem quiser falar sobre isso e conscientizar a sociedade.<\/p>\n<p><strong>Qual seria a import\u00e2ncia de continuar falando sobre Brumadinho? De ter um evento como vai ter no domingo na avenida Paulista? Qual \u00e9 a import\u00e2ncia para a sociedade, para o Brasil tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira coisa, \u00e9 homenagear as 272 pessoas que morreram, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que essas pessoas sejam esquecidas. Foram sonhos interrompidos, foram vidas interrompidas, foram rupturas nas fam\u00edlias de uma maneira muito profunda. Precisamos falar disso sempre [porque] n\u00e3o pode cair no esquecimento.<\/p>\n<p>O esquecimento e a impunidade s\u00e3o a porta para acontecer de novo. A gente fala [que] a mem\u00f3ria \u00e9 important\u00edssima, lembrar disso \u00e9 importante, para que ningu\u00e9m passe pelo que n\u00f3s estamos passando, para que nenhuma fam\u00edlia passe pelo que n\u00f3s estamos passando.<\/p>\n<p>A nossa fam\u00edlia, os meus filhos, minha nora, o pai deles e a madrasta eram turistas. Era feriado aqui em S\u00e3o Paulo, [eles] foram para l\u00e1 para conhecer [o museu] Inhotim, [foram] passar o feriado em um lugar perto de uma barragem de minera\u00e7\u00e3o e morrem? Como assim? N\u00e3o volta?<\/p>\n<p>Aquelas pessoas todas sa\u00edram para trabalhar de manh\u00e3 cedo, confiavam naquilo que a empresa diz, na vida acima de tudo, e morrem! E n\u00e3o voltam para casa! Isso precisa ser lembrado todos os dias, porque eu me lembro disso todos os dias. Eu estou sem meus filhos todos os dias da minha vida. Eu perdi.<\/p>\n<p>A gente precisa, sim, falar e a import\u00e2ncia do ato, no dia 25 de janeiro, \u00e9 exatamente isso. Trazer a mem\u00f3ria daquilo que aconteceu, para que n\u00e3o se repita, para haver justi\u00e7a, para que as pessoas saibam o que aconteceu e o que est\u00e1 acontecendo. Porque a trag\u00e9dia s\u00f3 come\u00e7ou no dia 25 de janeiro de 2019. A trag\u00e9dia \u00e9 todos os dias. Como voc\u00ea acorda de manh\u00e3 cedo, n\u00e3o tenho mais meu filho, n\u00e3o tenho mais minha filha, minha nora, meu neto. A fam\u00edlia inteira.<\/p>\n<p>Acho que a import\u00e2ncia de falar \u00e9 essa, que as pessoas se conscientizem do pre\u00e7o [que] estamos pagando para ter o que a gente tem. Que pre\u00e7o estamos pagando? Estamos pagando com a vida! Porque a vida \u00e9 mais do que isso. O ato \u00e9 importante para mostrar exatamente isso, que a vida tem que estar acima de qualquer coisa. Qualquer coisa! A vida precisa estar acima do lucro.<\/p>\n<p><strong>Depois do acidente, a senhora j\u00e1 foi l\u00e1 visitar Brumadinho? Como foi a sensa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Fui. Fui v\u00e1rias vezes. Muitas vezes. Participei de alguns atos porque l\u00e1 em Brumadinho, todo dia 25, de todos os meses, tem um ato na Pra\u00e7a das Joias. j\u00e1 fomos v\u00e1rias vezes, j\u00e1 fomos em reuni\u00f5es com a <a href=\"https:\/\/avabrum.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Avabrum<\/a>, a Associa\u00e7\u00e3o dos Familiares e Amigos das V\u00edtimas [pelo Rompimento da Barragem Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o \u2013 Brumadinho].<\/p>\n<p>Foi inaugurado o memorial Brumadinho, est\u00e1 fazendo um ano agora. Acho que voltar l\u00e1, para mim, \u00e9 homenagear meus filhos. Reconhecer que a morte deles n\u00e3o pode ter sido em v\u00e3o, que a gente precisa estar presente em todas as situa\u00e7\u00f5es em que tivermos chance de falar sobre o que aconteceu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a gente j\u00e1 foi e vamos a qualquer momento que seja necess\u00e1ria a nossa ida l\u00e1. A gente n\u00e3o pode ir toda hora, porque \u00e9 longe, \u00e9 caro, mas sempre que for poss\u00edvel, a gente vai sim.<\/p>\n<p>Para mim, \u00e9 como se eu fosse visit\u00e1-los e estar com as fam\u00edlias que passam a mesma dor que eu passo, que t\u00eam a mesma dor que eu tenho. A gente se ampara, damos as m\u00e3os e continuamos nessa luta. Uma hora vai ter que dar certo isso, uma hora a gente vai ter justi\u00e7a.\n                                                <\/p><\/div>\n<p><\/a><\/p>\n<p>Fonte: apublica.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 25 de janeiro de 2019, h\u00e1 cerca de sete anos, quando a Barragem I da Mina de C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais, rompeu \u00e0s 12h28, Helena Taliberti perdeu toda sua fam\u00edlia. Os dois filhos, Luiz e Camila Taliberti, o pai deles, a nora, gr\u00e1vida do seu primeiro neto, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6961,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"fifu_image_url":"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/THUMB_REPORTAGEM-82.jpg?fit=1200%2C630&ssl=1","fifu_image_alt":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[107],"tags":[],"class_list":{"0":"post-6960","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-economia"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/THUMB_REPORTAGEM-82.jpg?fit=1200%2C630&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6960"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6960\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/friburgonoticias.com.br\/temp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}