45 anos depois, um carro reencontra seu primeiro dono

Colunista
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Quando se fala em “carro do Zico”, o que vem à mente é o Toyota Celica que o jogador guarda até hoje em sua garagem, como troféu do título mundial conquistado pelo Flamengo em 1981.

Os realmente nerds em automóveis podem se lembrar até do Corolla Zico Limited Edition, uma série de 20 carros personalizados pela rede de concessionárias Rodobens, em 2018.

Mas hoje vamos falar do “Miura do Zico” — um carro que foi do craque no fim dos anos 70, passou por muitos donos, atravessou um período de decadência e agora ressurge impecável após uma longa restauração. No sábado (20/9), no Rio, o ex-jogador autografou o esportivo que não via há 45 anos.

O Miura não era do agrado da Sandra. Por isso não fiquei muito tempo com ele — conta Zico, hoje com 72 anos, lembrando da implicância da esposa com o carro.

Nossa história começa em 22 de dezembro de 1978, quando Zico — ou melhor, Arthur Antunes de Coimbra — comprou o Miura modelo 1979, cor cinza, chassi número 10.173. O exemplar recebeu a placa QR-5100, do Rio de Janeiro.

Zico era, na época, o jogador mais caro do futebol brasileiro. Logo depois de adquirir o carro, o craque foi ao Centro do Rio fazer as compras de Natal e encontrar-se com seu padrinho George Helal, histórico dirigente do Flamengo.



Recorte do Jornal dos Sports em 1979 (1)
Recorte do Jornal dos Sports em 1979 (1)

Foto de: Jason Vogel

Em um tempo de importações fechadas, o Miura era um automóvel muito caro e raro, que chamava atenção nas ruas por suas formas aerodinâmicas. Curiosos imaginavam tratar-se de um modelo estrangeiro

“É americano ou inglês?” perguntou Raymundo Mendonça, colunista do “Jornal dos Sports”.

Ao que Zico respondeu:

“É nacional, fabricado no Rio Grande do Sul. A gente entra na fila e espera seis meses.”

Helal examinou o carro, tateou o painel e aprovou o arroubo de juventude do camisa 10.

“Era um carro muito diferente. Fiz amizade com o pessoal da agência e comprei mesmo, não foi permuta, não…”, relata o Galinho, quase cinco décadas depois.

Os Miura eram vendidos no Rio de Janeiro pela concessionária Fracalanza, que ficava no bairro de Botafogo e pertencia ao vascaíno Edvaldo Soares dos Santos.



O reencontro com o Miura após 45 anos (Foto Jason Vogel)
O reencontro com o Miura após 45 anos (Foto Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

— O Zico foi o primeiro atleta profissional de futebol a comprar um Miura. Foi o início de uma amizade que prezo muito — conta Edvaldo, hoje presidente do Esporte Clube Democrata, de Governador Valadares (MG).

Por um breve período, o jogador usou o esportivo para ir aos treinos no clube da Gávea ou às aulas da faculdade de Educação Física, em Realengo.

Mas, com apenas 25 anos, Zico já era um responsável pai de família. Casado com Sandra Carvalho de Sá, sua namorada desde a adolescência, tinha dois filhos: Júnior (então com 1 ano) e Bruno (um bebê de dois meses).

“O Miura era um carro de solteiro, e eu estava cheio de responsabilidades. A Sandra, nas poucas vezes em que andou, detestou o carro. Até para entrar era complicado” relembra o jogador.



Ginástica para sair do Miura (Foto - Matheus Marques)
Ginástica para sair do Miura (Foto – Matheus Marques)

Foto de: Jason Vogel

Resultado: os carros mais usados pela família eram os Passat. Um deles, marrom, foi comprado 0km em outubro de 1979 — e o Miura foi chutado para escanteio, sendo transferido para um novo dono em fevereiro do ano seguinte.

Zico nunca mais teve um Miura, mas, em 13 de dezembro de 1981, foi campeão mundial pelo Flamengo, em Tóquio, e ganhou seu xodozinho: o famoso Toyota Celica (após dividir o valor entre toda a equipe e enfrentar uma batalha burocrática para a importação, que durou dois anos).



O Miura ao ser anunciado em 2009 - emblema de Puma
O Miura ao ser anunciado em 2009 – emblema de Puma

Foto de: Jason Vogel

A Volta

Em 2009, Sandro Zgur, presidente do Miura Clube do Rio, viu o anúncio de um Miura em péssimo estado. Segundo o vendedor, o carro havia pertencido ao Zico — e, realmente, constava o nome de Arthur Antunes Coimbra como primeiro dono, no registro de proprietários.

“O vendedor pedia um valor exorbitante e ficou por isso mesmo. Mas guardei o contato” lembra Sandro, que também levantou a ficha do carro nos arquivos da fábrica.

Nesse meio tempo, o presidente do Miura Clube conheceu a família Arruda, dona da Garage Brazil, uma coleção de mais de 200 carros fora de série nacionais em Araçariguama (SP).

O acervo dos irmãos Alexandre e João Marcos Arruda Pires tem nada menos que 40 Miura, uma paixão que vem de longe. O pai deles era advogado da Besson, Gobbi Ltda., empresa gaúcha que fabricava os esportivos.

“Meu primeiro carro, em 1998, foi um Miura Saga 1986” conta João.

Consultor nas restaurações da Garage Brazil, Sandro convenceu os Arruda a salvar o “Miura do Zico”. Foi atrás do carro e descobriu que ainda estava com o mesmo dono. Desta vez, porém, o negócio saiu.

De 2013 até o início de 2025, o exemplar passou por uma restauração completa. A frente e a traseira já haviam sido alteradas depois de uma batida e de uma tentativa de “transformação em Lamborghini”. Um outro Miura modelo 1979 foi comprado e usado para tirar os moldes das peças de carroceria que haviam sido modificadas. A pintura foi refeita no tom original: o cinza Angra, dos Alfa Romeo 2300 de 1977.

“Estava tudo ruim: motor, carroceria, interior. Tivemos que refazer o assoalho completo. Normalmente, não compramos carros tão detonados, mas esse havia pertencido ao Zico, né?” conta João, que nunca ligou muito para futebol, mas jura que agora é Flamengo.

O encontro para que o Galinho autografasse o carro foi arranjado pelo jornalista Portuga Tavares, apaixonado por carros antigos. Uma chamada por vídeo e o Galinho topou.

E assim, no último sábado, o impecável Miura trazido de Araçariguama cruzou o portão do Centro de Futebol Zico (CFZ), no bairro carioca do Recreio dos Bandeirantes, para um reencontro com seu dono original.



Zico assina a traseira do Miura  (Foto - Jason Vogel)
Zico assina a traseira do Miura (Foto – Jason Vogel)

Foto de: Jason Vogel

O Galinho fez um certo esforço para entrar no Miura e autografar seu painel. Também pôs sua famosa assinatura, com caneta permanente, na traseira do esportivo. Juntou gente para ver o momento.

“A perna esquerda funcionava e eu podia dirigir carro com pedal de embreagem. Hoje, com esse joelho ruim, é um problema entrar em um carro tão baixinho” contou, sem muitas saudades, o eterno craque, que hoje dirige um cômodo BYD Song Plus.

Fonte: motor1.uol.com.br

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