Há anos, a imprensa tem feito um cuidadoso trabalho, repetido diuturnamente, com o objetivo de associar qualquer questionamento à estrutura do poder de fato que se consolidou no país, a uma força, batizada de “bolsonarismo”. Pouco importa que as demandas e pautas propostas por quaisquer críticos do regime estejam de acordo com o ordenamento legal e que sejam previstas na constituição — e mais importante, também não importa que estes críticos não sejam, necessariamente, correligionários do ex-presidente Bolsonaro, ou sequer com ele simpatizem.
Um indivíduo que propõe anistia a uma cabeleireira condenada a 14 anos de prisão, por pichar uma estátua, é automaticamente taxado de “radical” ou “bolsonarista”. Parlamentares obstruem a pauta do Congresso em demanda pelo impeachment de um ministro do STF, um procedimento previsto no ordenamento legal brasileiro e de atribuição exclusiva do Senado? Não importa, uma “súcia de deputados sequestrou o Congresso”, “amotinou-se” e “tornou-o refém de uma chantagem” — termos que constam em editorial do jornal O Estado de S. Paulo, publicado em 8 de agosto de 2025. Alguém está propondo que se investigue as revelações de Eduardo Tagliaferro, um ex-funcionário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que mostrou evidências a comissões parlamentares segundo as quais as prisões do 8 de janeiro foram decididas com base em “certidões” de indivíduos baseadas em postagens datadas — à moda do antigo Dops da ditadura de Vargas — ou que relatórios que motivaram a operação do TSE contra empresários, em 2022, teriam sido confeccionados após a mesma? Pronto, o indivíduo em questão é “bolsonarista” ou “fanático”.


Esse exercício de lavagem cerebral sobre a opinião pública, que procura levar falaciosamente a crer que a sociedade deve ser particionada entre os alinhados e os não alinhados a um determinado ordenamento ou regime, é uma técnica conhecida, utilizada pela primeira vez durante a Revolução Francesa, e, posteriormente, replicada inúmeras vezes por autocracias, por meio de suas respectivas máquinas de propaganda. A narrativa de partição forçada do tecido social em dois grupos, bem como as ameaças, proscrições e sanções direcionadas ao subgrupo que se deseja intimidar, e no limite, eliminar, consiste na essência da chamada “mentalidade revolucionária.”
No período do terror, entre 1793 e 1794, os jacobinos, que se apoderaram da liderança do movimento “em nome do povo”, impunham, através de suas listas de proscrição de pessoas, e de textos diários publicados nos jornais e folhetos sob seu controle, a narrativa de que o indivíduo (“cidadão”) ou estava a favor da revolução, ou estava contra ela. Como nos lembra o filósofo Sir Roger Scruton em seu magnífico ensaio sobre o livro Reflections on the French Revolution, nos debates do clube jacobino, os membros da Gironda (grupo de deputados mais moderados) aparecem “não como pessoas, mas como manifestações de uma força — o girondismo”. O crítico individual se transforma num “inimigo do povo”, cujos direitos tornam-se automaticamente cancelados.
O componente de desumanização de adversários é um aspecto particularmente repugnante do modus operandi revolucionário. Dois recentes episódios (entre inúmeros) ilustram o esforço de remoção da dignidade dos opositores do regime em curso no Brasil. A agressão verbal registrada em vídeo à deputada Caroline de Toni (PL-SC), grávida de sete meses, em que um repórter a persegue e deseja “muita saúde” à sua filha, para quem espera que seja adotado o nome de “Dilma”, em referência à ex-presidente opositora da deputada; e a hostilização do advogado Jeffrey Chiquini e de vereadores de Curitiba, convidados a dar uma palestra na Universidade Federal do Paraná. Os convidados foram chutados, ameaçados com porretes por “estudantes” de esquerda, chamados de “fascistas” e impedidos de fazer a exposição.
Episódios como esses, por sinal, são frequentes não só no Brasil, mas em quase todos os países do Ocidente, que vivem, em maior ou menor escala, no que se refere à situação discutida nesse artigo, um estado de coisas semelhante. Em todas essas ocasiões, sem exceção, pessoas com visões mais alinhadas à direita são as vítimas da hostilização. Há casos extremos, de assassinatos — ou tentativas — de personalidades e políticos de direita, que têm se tornado mais frequentes. Podemos citar os atentados ao então candidatos a presidente Jair Bolsonaro, em 2018, e a Donald Trump, nos Estados Unidos (EUA), em 2024. Mais recentemente, na Colômbia, o pré-candidato a presidente e senador Miguel Uribe foi assassinado por um militante de esquerda. Em 10 de setembro, nos EUA, o ativista conservador Charlie Kirk foi assassinado com um tiro no pescoço, numa cena que chocou o mundo.


Há muitas semelhanças entre o Brasil contemporâneo e a França revolucionária do século XVIII. Uma diferença importante é que, nessa última, a perseguição foi imposta a qualquer pessoa que mostrasse o menor sinal de associação ou simpatia pelo regime derrubado. No Brasil, o movimento visa obviamente não a mudança de regime, mas a preservação do atual, e trabalha ativamente para impedir que qualquer político disposto a contribuir para o reestabelecimento pleno dos princípios constitucionais possa chegar ao poder. A identificação de qualquer crítico individual ao regime ao rótulo de “bolsonarista”, ou “inimigo da democracia” é parte integral dessa estratégia, como também o são as intimidações, cassações ilegais de mandatos e perseguições a que outros tantos são submetidos. A recente tentativa de tipificação de setores da oposição como “traidores da pátria” e a invocação da “soberania” do Brasil, no contexto das sanções impostas pelos Estados Unidos, segue também o paralelo com a França revolucionária, onde os oponentes dos jacobinos eram rotulados de “criminosos ligados ao estrangeiro”. Na União Soviética sob Stálin, os “traidores da pátria” — dissidentes do regime — eram mandados aos gulags, ou executados. Milhões de pessoas sofreram este destino.
Saint-Just dizia que “a República consiste na destruição total de tudo aquilo que a ela se opõe”. Vejamos que tipo de República nos restará, se os jacobinos de hoje lograrem atingir os objetivos que tão avidamente perseguem.
Leia também: “Abutres e leões”, artigo publicado na Edição 287 da Revista Oeste
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Fonte: revistaoeste.com


